Ravioli de estrelas, pizza de coração, capeletti ou fettuccine cor de rosa, caixinhas de croissants… A criatividade da chef vegana Daniela Cavalcante, 28 anos, não tem limites. Depois de ter se formado em Comunicação e Marketing, ela foi estudar na escola do primeiro restaurante vegano com estrela do Guia Michelin: o Jóia, em Milão, na Itália. O Ciganando nasceu em junho de 2018 como um negócio de impacto social. A cada comprador atendido, Daniela doa uma marmita vegana a pessoas em situação de vulnerabilidade social em São Paulo. Além de preparar as comidinhas, Daniela cuida das vendas, das contas e da divulgação nas redes sociais.

Como nasceu o Ciganando?
Eu ainda estava na Faculdade de Comunicação e Marketing quando comecei a trabalhar em uma ONG chamada Rapunzel Solidária. Naquele momento, percebi que meu sonho seria montar um negócio de impacto social. Um negócio tradicional de venda de produtos ou serviços que gerasse ao mesmo tempo impacto positivo na sociedade. O impacto gerado e o principal serviço devem estar diretamente relacionados dentro do negócio. Na época, eu estava me tornando vegana e sabia que o impacto que gostaria de gerar teria que ser relacionado à alimentação, contribuindo com a diminuição da fome e da desnutrição no mundo. Foi assim que idealizei um negócio: a cada comprador atendido, uma marmita vegana seria doada a pessoas em situação de vulnerabilidade social em São Paulo. Até hoje, já entregamos 770 marmitas em São Paulo, feitas pelas mesmas mãos que preparam as comidinhas vendidas aos nossos clientes. Logo, a ideia do Ciganando surgiu primeiramente do modelo de negócio, para depois estruturar todo o restante.

Você já gostava de cozinhar?
Minha mãe e todas as mulheres da família são cozinheiras de mão cheia. Comia comida fresquinha todos os dias. Cada dia, minha mãe testava uma receita diferente, com a mesa sempre abundante. Minhas amigas sempre amaram almoçar e jantar na minha casa. Muitas das receitas do Ciganando possuem memória afetiva das cozinheiras da minha vida. Em datas comemorativas, como Páscoa e Natal, são as receitas delas que sigo como base de criação. No caso da bacalhoada, eu substituo o peixe por palmitos ou alcachofras, preparados seguindo a mesma receita. Além disso, eu me inspiro muito nos cursos que fiz e principalmente na história e na tradição de cada receita. Quando me formei, fui aprimorar o meu conhecimento sobre culinária. Fiz diversos cursos de culinária vegana em São Paulo e surgiu a possibilidade de estudar na escola do primeiro restaurante vegano com estrela do Guia Michelin: o Jóia [a escola se chama Jóia Academy em Milão, na Itália].

Quais são suas outras inspirações?
Todas as receitas têm alguma inspiração. Acredito que, mesmo fazendo comidinhas veganas, devo respeitar a história e a tradição daquela receita, então busco sempre seguir a base do “criador” daquele prato, buscar entender a história daquela receita e o que faz dela única. Essa foi a lição mais importante que aprendi em Milão: a de seguir as técnicas criadas tantos anos atrás. Afinal, alguém a descobriu, testou, testou de novo, colocou em um livro de receitas.  Foi lá que comecei a enxergar a culinária de uma forma ainda mais apaixonante – conhecendo a história das receitas, as tradições, as técnicas, e também a criatividade. Foi lá que aprendi a colorir massas naturalmente com vegetais. Foi todo um semestre estudando e aprendendo muito!

Como essas cores se transformaram em sua marca registrada?
Quando voltei do curso, o Ciganando nasceu. Antes da pandemia, o principal serviço era o de jantares secretos de comidinhas veganas, com menus de cinco a oito tempos, incluindo entradas, petiscos, pratos principais e sobremesas. Já no primeiro jantar, preparei o fettuccine cor-de-rosa e foi incrível! Com a pandemia, os jantares pararam de acontecer e comecei a vender as nossas cestinhas e caixinhas. Jantares e almoços só sob encomenda. De lá pra cá foram muitas massas coloridas, não só de rosa, mas também de roxo, verde… todas de forma 100% natural. Assumo que o rosa é o meu queridinho e vem da beterraba. O roxo da batata doce roxa, o verde da couve, espinafre… Todas as cores são extraídas e conservadas como se fossem essências dos alimentos, bem lisinhas e concentradas. Além das massas e do hommus, estou sempre testando e inventando novas formas de colorir os alimentos. Já fiz pão de fermentação natural rosa e atualmente tenho no cardápio um croissant banhado de chocolate rosa, que é um chocolate branco colorido com a nossa essência cor-de-rosa. Pretendo colorir tudo o que puder.